terça-feira, 29 de setembro de 2009

Perfume

Música: "Misty"
Artista: Billie Holiday (Estados Unidos)
Informações: http://www.billie-holiday.net/




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Talvez seja isto, a essência da harmonia e a flagrância da vida. Satisfeita com o consenso dos pensamentos ela levanta a cabeça, se concentra na música ambiente e rende-se a subjetividade das coisas. Ao redor, a consciência já não mais distingue o certo do errado, o possível do impossível. É quando o estado de espírito não necessariamente é físico para existir.

A Praça do Papa, em Belo Horizonte, estava tomada de pessoas. O programa já estava há tempos agendado e desde então estava decidida que se deslocaria até o local para se deleitar com as atrações nacionais e internacionais do I Love Jazz.

Para ela, o jazz transcende a música. É a manifestação de arte que proporciona deleite por meio da sensibilidade auditiva e olfativa. Sim, recebe a sonoridade em forma de perfume, que impregna na pele, se mistura com a energia do corpo e retorna ao ambiente externo em forma de um aroma intensamente experimentado, pelo tato, no ar.

Indiferente a agitação alheia ela repousa os sentimentos na ânsia de alimentá-los. Com música, com cheiros, com urgência. Aos primeiros toques do piano – e o sax que gradativamente encorpava a música -, ela respira o ar leve, doce e facilmente acolhedor. Mas, durante a intensidade dos instrumentos e no momento mais potente em que a vocalista posta a voz, o ar já carregado de mistério e sensualidade, que pouco a pouco a envolve como um abraço de conforto.

O relógio aponta o fim da tarde, o sol se despede com raios alaranjados, que logo se mesclam com o azul da noite. Para ela, o momento perfeito, o combustível que a legitima. E que revigora a trivialidade dos dias e condensa a existência. No caminho para casa, ela sente o perfume daquela experiência como a flagrância pertinente, aquela que uma vez no íntimo, nunca mais esquecida. Um vício.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Tranquila

Música: "Casan (no puedo bloquear lo que queiro dar)"
Artista: Javiera Mena (Chile)



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A bateria do toca-mp3 acaba antes de chegar a sua casa. Pelas suas contas, ainda faltava dez minutos até o destino final, tempo que seria experimentado em conflito com o som de motores, buzinas e cochichos alheios. Dezoito horas e quarenta minutos. Um dia cansativo, produtivo e proveitoso, pensa. E que não terminaria ao findar do sol, pois o azul escuro da noite lhe prometia muitas outras brilhantes sensações.

Mas foi nestes exatos dez minutos consigo mesmo que desfrutou de sentimentos benéficos. O prazer era de um abraço com toneladas de afeto, daqueles que se lembra por resto da vida. Os olhos dispersos nada e tudo viam. A auto-estrada que, estática, conduzia pessoas às outras, que até poderiam estar à espera de um abraço confortante ou uma relaxante dose alcoólica. Lapsos visuais de um livreiro, que sentado à porta do estabelecimento, ainda em horário de funcionamento, reparava ao redor, como se capturava cenas para sua tão sonhada primeira publicação literária.

Os segundos passam, os minutos passam. Meticulosamente as cenas cotidianas observadas são absorvidas. Como um videoclipe de uma música minimalista, em que cada mínimo detalhe sonoro chicoteasse a carne e exprimisse o êxtase pelo sangue misturado ao suor. É a dor que gera o deleite, o indiferente que se torna o essencial. Escurecia, mas sentia-se iluminado, sem medo das trevas.

À esquerda, um ponto de ônibus com pessoas que acabaram de sair do cinema. Conversas dispersas em meio a preocupação de não perder a condução. E, na calçada, a pressa de andar para bem longe do local em que trabalham, desajeitando a gravata e brindando a informalidade da noite. Em tudo e em todos, como em si mesmo, captava a importância do conforto, a segurança no bem estar. Não em dez minutos, mas em toda uma vida. Não apenas no período noturno, mas que seja pertinente 24 horas.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Música: "É o que me interessa"
Artista: Lenine (Brasil)
Informações: www.myspace.com/lenineoficial


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Alguns dias e algumas horas são suficientes para sentir o que acalanta a finitude. É quando os limites são testados e, de forma sublime, esmagados por prazeres intangíveis. Penso, movimento-me, falo, calo, sinto, olho e em milésimos de segundos tudo se torna uma experiência cujos resultados aparecem na realidade pelo brilho dos olhos.

É o combustível que o corpo físico necessita para ter energia e queima-la nas práticas formais e informais da existência. A reestruturação mental para, assim como o mundo que me cerca, se renovar a cada urgência dos anos que passam.

E subitamente sinto-me leve, imune a desgraças e ansioso por mais vida. O fim de tarde com amigos, o reencontro com àqueles que estavam distantes, o aperto de mão com um até então estranho e logo em seguida alguém que lhe proporcionou boas risadas. A madrugada intimista e uma boa companhia, a surpreendente sensação de sentir-se em casa e ânsia por tudo o quanto antes, como uma enfermidade que precisa de reparos.

Longe, tudo é miragem e felicidade alheia. Da Lua, a perspectiva é diferente; e fora de órbita eu vago, desnorteado, pesado, insensível, mas ainda com a mesma ânsia por outros dias e horas como aquelas.

Obs.: Um muito obrigado ao Eduardo, Thais, Felipe, Priscila, Guilherme, Cândida, Jota, Aline, Dan, Guto, Ivinho, Charque e tantos outros que fizeram de alguns dias e algumas horas momentos cravados para sempre até o fim da minha existência.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Ar radical

Música: "Born Again"
Artista: Starsailor (Inglaterra)



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Sete horas da manhã. Desperta, se arruma e a bicicleta já está devidamente preparada para o dia. O grande dia, em que rituais banais se tornam extremamente satisfatórios e prazerosos quando realizados com a mais pura sinceridade. É aquela vontade sentir o vento matinal explodir no rosto e no peito, a necessidade de rodar pela cidade sem destino algum. Afinal, era o dia de esquecer tudo o que poderia fazer sentido.

Em dias sem sentido até mesmo o brilho do sol lhe era conveniente. E estava lá no céu, ameno, a luz que enfim o acordou. Não perdeu mais tempo e saiu. Pedalou. Suou. Cansou e não parou. O vento nas entranhas era energia. Estava fazendo circular o sangue há tempos emperrado e com dificuldades de alimentar o organismo.

Quanto mais pedalava, mais injetava novos ares à vida. O ar radical, que outrora foi primordial a sua formação e hoje deveras melhor experimentado. Combustível vital que, assim como um ritual, mistifica a existência humana e potencializa a longevidade. E, sem sentido, desejou fechar os olhos e descer uma ladeira desfreadamente. Não fez, não quer sempre depender do acaso.

No entanto, melhorar a circulação do sangue não foi suficiente para eliminar o veneno há tanto tempo no organismo. Um veneno que não machuca e não matará. Fere em lembranças e o faz escravo de coisas sem sentido, a única que quer apagar da memória, sempre sem sucesso. E que nem mesmo o que fez hoje sanará.

Sentidos vitais não são substituíveis. Ar renovado algum é capaz de expeli-lo e enquanto isso ele vive, se apega a rituais, facilita a funcionalidade da existência física e retorna ao acaso.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Azul escuro

Música: "Blue Glass Highway"
Artista: Vacabou (Espanha)
Informações: www.myspace.com/vacabou


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O sol ilumina o que não precisa de luz... o que não quer calor...o que quer o conforto da sombra. E eu, pelas grades de uma janela, assim como numa prisão, quero escapar para bem longe do sol e me encontrar no azul escuro da noite.

Na vastidão noturna que me alerta do minimalismo nas coisas. Sem a mínima necessidade de mais cores. Só o azul em sua tonalidade mais envolvente, suficiente para engolir tudo o que o sol insiste em mostrar com um brilho falso. Apenas queima, sem beleza, sem charme.

E adentro no profundo azul, sem sentido ou anseios. Jogo-me no insinuante azul atento apenas aos prazeres das penumbras, que desvirtuam o colorido e mistificam a existência. E dá autonomia ao ser, embriagado na indiferença do escuro.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Arte

“A arte existe porque a vida não basta”, disse Fernando Pessoa.

Quis impor um basta a vida e ficar apenas com a arte, mas esta não lhe é uma possibilidade. Então faz arte para valer a existência da vida.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Música: "To those who will burn"
Artista: Damien Jurado (Estados Unidos)
Informações: www.myspace.com/damienjurado




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Demorei alguns bons minutos para enfim encarar o papel e o lápis postos na escrivaninha do quarto. Era fim de tarde e o vento entrava gelado pelas frestas da janela. Vesti a blusa xadrez marrom que há anos me acompanha. Um ato até mais pela elegância para o ofício de escrever do que apenas “frio”. Na verdade, bastaria simplesmente fechar o vidro da janela.

E foi o que também fiz, como artimanha para desviar ainda mais a atenção para o papel e o lápis que estavam ali, na mesa, perto do relógio que indicava dezenove horas. Hora de não perder mais tempo, hora de sentar e adentrar ao universo da minha vida paralela. Era hora de escrever aos meus anjos e demônios.

Uma confissão sem reticências. Um veredicto convicto. Uma ânsia do tamanho do mundo. Para meus anjos e meus demônios, que pavimentam a existência no âmbito terrestre com a precisão matemática dos antigos e a genialidade artística dos modernos. Para eles, uma confissão, um veredicto e a ânsia de mais e mais concreto.

É quando entendo os minutos perdidos exitando o testamento. Clamar pelos anjos e demônios é trazer à tona a fúria dos anseios e malevolência das inquietações. Senti o peso da confissão e a rispidez do veredicto para enfim destroçar a ânsia dos pensamentos. Uma verdade em uma insanidade: a necessidade do embate constante entre meus anjos e demônios.

Testemunho a favor do conflito interno e renego a linearidade e, principalmente, a lucidez do cotidiano. Uma confissão aos anjos e demônios, que nada tem a ver com a turma do céu ou a do inferno. O veredicto está em mim e minhas ânsias no único plano que existe: o real, o agora.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Música: "Black Hills"
Artista: Gregory Alan Isakov (África do Sul)
Informações: www.myspace.com/gregoryalanisakov


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Vibrou com a tarde cultural, exatamente do jeito que gostaria que fosse em todos os dias da vida. Leu trechos da revista nova, escutou boas canções e revisou a lista de novos filmes no jornal de ontem antes de jogá-lo fora. Também dedicou um tempinho para escrever pensamentos e deslocar, da memória para o computador, a crítica do último CD que ganhou.

Um ano atrás não seria diferente, como de fato não foi. No dia 13 de julho de 2008 ele estava em Girona, na Espanha, conhecendo igrejas com arquitetura gótica e outras renascentistas, andando sob uma restaurada muralha romana, vagando contemplativo por um antigo bairro judeu do século 14, comprando livros em Barcelona e descansando em cafés tipicamente europeus.

Aqui não é a Europa, os ares são outros, no entanto, repletos de sentimentos capazes de lhe trazer contentamento. As dependências do Engenho Central despertam sensações distintas das sentidas entre as ruínas gregas de Empúrias, mas lhe é um ar respirável, com o imediatismo da realidade.

Ele sabe das possibilidades culturais de mundos tão apartados. A experiência de uma recai sob a outra e juntas agem como força motriz de sua existência. Brasil, Europa, tanto faz. Vive o que sente, reage ao que lhe atinge. O que legitima a memória de outrora é a felicidade verdadeira que reside nos devaneios do presente.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Música: "Maybe Tomorrow"
Artista: Stereophonics (Reino Unido)
Informações: www.myspace.com/stereophonics

Maybe Tomorrow by Stereophonics
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Impaciente. Movimentos repetitivos e ânsia pelo objetivo do momento eram indícios de que apenas se acalmaria quando recebesse aquele e-mail. Alguém fala algo e ele responde com monossílabas. A demanda não era falar. A demanda não era sociabilidade. Impaciente. Lembra de uma música para tentar relaxar e a melodia imaginária era de uma canção que definitivamente não deveria ser desarquivada da memória.

Uma nova mensagem. Recebe, lê, responde e estava decretado o fim das formalidades do dia. A impaciência era também a vontade de realizar outras atividades. Como caminhar. Naquela tarde de temperatura amena ele queria andar por aí escutando música com fones no ouvido. Eram fones novos, daqueles que dá gosto de selecionar músicas favoritas e cantarolar mentalmente pela cidade. São vontades que o fez sentir a chegada da paciência...

Impaciência não combinava com uma leve caminhada que, de tão desejada, até trilha sonora teria. Aquela inquietação da manhã estava relacionada à preocupação alheia, enquanto a indiferença da tarde era a chave para o deleite pessoal. “Menos vocês e mais eu”. Eram seus pés, suas músicas e seu momento.

Todas as preocupações e suposições ficaram na gaveta junto com a impaciência. Durante a caminhada apenas andou como se estivesse em um filme. Sentiu-se o centro das atenções de alguma câmera invisível, captando imagens que não estaria em nenhuma superprodução, mas seria então documento para seu arquivo mental. E aí sim, lembranças sublimes e confortantes, são cabíveis de estarem dispostas para consulta por toda a sua existência.

O destino da andança? Pouco importou naquela tarde. Foi apenas uma desculpa para curtir a si mesmo.

sábado, 4 de julho de 2009

Minimalismo

Música: "3055'
Artista: Ólafur Arnalds (Islândia)
Informações: www.myspace.com/olafurarnalds


3055 by Ólafur Arnalds
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Casa vazia, copo cheio. Sentado comportadamente na cadeira do quarto, apoiando os cotovelos na mesa à frente e dedos entrelaçados. As luzes estavam acesas e barulhos de alguns carros que ainda passavam na avenida ali perto, já às 3 da manhã. A calmaria não necessariamente pede o escuro, o sereno. Mas sugere embriagues. O ilícito que leva a consciência à minúcia, que favorece a leveza do ser. O som do piano, tocado com sutileza, simetricamente em harmonia com o violino, é a marcha para o transe.

Que não sugere reflexões, flagelações, explicações. Não há prazer maior do que apenas fluir, sentir uma dose de emoção querendo sair das entranhas do corpo a cada toque do piano, que insiste em soar cada vez mais perigoso. Não apenas sentido nos ouvidos, mas no íntimo de tudo que se entende por belo e eufórico.

Mas é preciso sentir o coração pesado e segura-lo no peito, sabe-se lá como. Porque ainda há mais três minutos de música e o ritmo progressivo ganhará novas proporções. É preciso embriagar-se mais e entregar-se ao deleite, puro e simplesmente orientado ao bem estar. E nada de reflexões, lamentações e anseios.

Porque os instrumentos aceleraram, como se os próprios músicos estivessem sórdidos para explodir em êxtase. É o que me proporcionam. E o transe finalmente atinge seu ápice ao rufar da bateria. A perfeita combinação do clássico com o popular, da leveza com o pesado, da elegância com o caótico. Nenhum pensamento em mente, sem a mínima necessidade de palavras.

E quando a calmaria retorna à cena, volta também a urgência de mais embriaguês, outra dose de sensações ilícitas e mais toneladas de notas musicais.

“É preciso estar sempre embriagado. Apenas isso, mais nada. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que vos esmaga os ombros e vos dobra para o chão, é preciso que vos embriagueis sem tréguas. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos.” Charles Baudelaire