sexta-feira, 18 de julho de 2014

Ruas

Ouço o som das ruas. As ferramentas dos trabalhadores num canteiro de obra, os gritos do guardador de carro e os motores de automóveis em combustão. Mas também ouço passos tensos de quem se sente sufocado pela necessidade do movimento em suas horas pagas, do mesmo modo em que tantas vozes ao meu redor nada dizem, no entanto, soam como um canto agonizante.

As ruas estão infectadas pelos maus anseios e pesares dos indivíduos, tão carregados de angústia e frustração depois de insuportáveis escárnios do patrão e incontáveis tentativas de sobrepor perseverança à opressão das burocracias. É um sentimento desgraçado que chuva alguma infiltra e leva embora.

O suor é permanente. É o sangue que somente o oprimido sente escorrer e sente correr para fora do corpo como a marca de uma luta que é diária e para sempre. Sangra hoje, sangrou ontem e sangrará amanhã. Uma amálgama, uma simbiose, a segunda pele que não protege, mas é incorruptível. As ofensas do cotidiano o embaraçam e então ele sua. Sua o sangue dos justos, o sangue da miséria.


As ruas estão entre o céu e o inferno. É o purgatório onde vivemos e pagamos o injusto preço da liberdade, a liberdade subjugada e estilhaçada a partir do momento em que reagimos contra a servidão. Em vão. O ar das ruas está poluído e o que respiramos é a podridão. Nas ruas, estamos jogados e a perspectiva é lutar contra todos os sons, visões e sensações ao redor. Às vezes, o fedor das ruas é menor, mas o barulho é sempre desagradável.  

sexta-feira, 4 de março de 2011

O espaço

Música: "Youth gone wild"
Artista: Hellsongs
Informações: myspace.com/hellsongs


Hellsongs - Youth Gone Wild by Etedesco

Há pedaços inteligíveis no meu diário. Releio as páginas e ainda não entendo algumas frases. Mal escritas, mal interpretadas, mal contadas. Mas como consertar o garrancho e enfim ler palavras inteligíveis?

Penso em apagar, mas não é a saída. Equívocos, inevitavelmente estão ali eternizados. Erros, não um errante e por isso que constantemente retorno às palavras grosseiras para entender aquelas passagens obscuras. É uma escrita rápida, ora com letras garrafais, ora minúsculas. Tudo se confunde com a inconstância das entrelinhas.

Há ainda as páginas em branco. O nada absoluto, mas repleto de subjetividade. O que os olhos não lêem a memória idealiza. Idealiza linhas bem escritas, com palavras fantásticas. Idealiza o que não quis ali escrever outrora. Porque não existem momentos nulos, eu sei. Foram apenas ocultados, mas nunca não vividos.

Retorno àquelas páginas mal escritas. Releio, não entendo, forço a vista e enfim percebo. Não são erros, apenas palavras a serem descodificadas. De certa forma, com ou sem propósito, a história foi contada propositalmente ilegível. Talvez faça sentido na próxima vez que revisar o diário. Talvez entenda com outra luz.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Miserável

“Miserável”, disse enraivecido pela estupidez do cara ao lado. Fica sempre transtornado quando não acreditam em sua convicção ou desprezam a sensibilidade humana. Para ele, conviver com imbecis e aturar a presença de boçais era sufocante.

A cordialidade da paciência já se esgotara. Levanta, xinga novamente e antes de sair definitivamente da sala, xinga novamente: “miserável de merda”. A canalhice alheia lhe emputeceu e queria chutar a boca do desgraçado, mas apenas canalizou nas palavras.

Era sempre assim. A conversa começava na informalidade do cotidiano, sem seriedade alguma, mas terminava com ele possesso. Desta vez resolveu procurar um médico. “É alergia a ignorância”, apontou o diagnóstico, enquanto que o remédio seria uma vida inteira longe de cretinos. Impossível.



quinta-feira, 15 de abril de 2010

Sinais

Música: And The Bells Are Ringing Doom
Artista: Weh (Noruega)
Informações: www.weh.erikevju.com



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Sexta-feira santa, sábado de aleluia e domingo de páscoa. A trilogia de Jesus dos cristãos, o cara que não é o deus de Eferson. No entanto, assim como eles, foi hipócrita e se entregou – sem remorso - a gula de peixes, vinho e chocolates. E com a vantagem de não perder tempo rezando ou pensando em historinhas bíblicas.

Eferson perdeu a fé ainda na adolescência, quando definitivamente entendeu que foi ele próprio que pavimentou os então 16 anos e estava com as ferramentas e argamassa necessária para edificar o presente. De criador a criação. É assim que o garoto define sua relação com os deuses e seres imaginários do universo religioso.

Descobriu que datas como Páscoa e Natal ganhariam novos significados, melhores do que enquanto amarrado pelo catolicismo. Não mais precisava rezar, agradecer ou pedir coisa alguma na hora de receber presentes e comer chocolates. Todos os prazeres eram frutos de seu caráter, seu esforço e independia de benevolência divina.

Era a ânsia de viver pulsando em suas entranhas. Era a urgência de sentir-se enfim de carne e osso, passível de rir, chorar, amar, sofrer e idolatrar quem de fato é importante para sua existência. “Eu existo”, branda de punhos cerrados, como um gesto de condolência ao ar que respira, ao chão que pisa e à comida que o alimenta.

Deus algum o manda trabalhar para receber pelas horas pagas àquele que o explora, assim como não perderá mais um minuto da sua existência para “conversar” com o nada. O tempo é escasso e quer exprimi-lo com outros seres humanos que lhe conforta. Hoje sente-se bravo para sucumbir ao acaso. Prefere morrer de pé a viver de joelhos.

Em nome da família, dos amigos e da vida. Hail!

terça-feira, 30 de março de 2010

Música: "The isle of summer"
Artista: Agalloch (Estados Unidos)
Informações: www.myspace.com/agalloch



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Oi, Cecília, como vai? Parei de trabalhar por um momento para te escrever. Ah, sim, está tudo bem, as pautas atendidas, entrevistas realizadas e parágrafos fluindo com naturalidade. Claro, já foram dois copos de café, conversa informal com o pessoal do jornal e bisbilhotadas no e-mail particular. É, recebi um ou outro, mas nenhum que realmente esperava ou que me surpreendeu.

Hoje vi umas fotos. Não, não minhas, de pessoas quaisquer, que assim como eu - e você - registraram certos momentos da vida. São fotos reveladas em papel, que até já estavam amareladas e confesso que acho este “efeito” bacana, como se o envelhecimento natural das coisas fosse capaz de legitimar a lembrança. Como se o dono da foto falasse “olha, isso faz tanto tempo! E ainda me recordo do dia em que foi fotografada”. Penso que gostaria de fotografar cada movimento, cada risada e cada trapalhada da minha vida. Sabe? Estamos crescendo e este processo também é passível de memória.

Mas não é simples assim, viu, Cecília. Quando vejo fotos como estas, de experiências de outras pessoas, sinto que tenho lembranças semelhantes, mesmo não fotografadas e me emociono, principalmente nas de fatos cotidianos. Sei lá porque, é quando prefiro conceber ideias no campo do sentimentalismo barato. Típico, eu sei, mas você deve levar em consideração que os anos passam, as memórias amarelam e enlouquecemos para que haja um pingo de nitidez em coisas cujos elos estão fracos.

Lembra de quando passeávamos de carro pela cidade, sem destino, sem propósito? Então, Cecília, é disso que eu falo. O corriqueiro de ontem e a saudades do hoje. Mas olha, estou te atrapalhando? Você sente algo parecido com coisas do passado? Ontem mesmo, de noite, fui deitar e queria musica. Fiquei um tempo em frente aos meus CDs, procurando algo que soasse lisérgico e atmosférico. E aí eram tantos... e cada um com uma história. Lembra, como eu me dedicava a ler sobre lançamentos e escutá-los? Mas então, demorei e não achei, porque eu queria todos ao mesmo tempo.

E é assim que me vejo em certos dias. Um computador com infinitas informações que entra em pane na tentativa de solucionar uma questão aparentemente fácil. É quanto peço ajuda aos amigos imaginários, que, no entanto, são todos uma só pessoa, eu. E percebo que tenho, sim, as respostas, sei os caminhos certeiros, mas antes trilho os mais complexos. Isso me lembra do verão de 2000, numa tarde com brincadeira de bola no quintal de sua casa. Lembra? Quando você a chutou forte contra o muro, girou o corpo e me abraçou, permanecendo assim por alguns minutos? Sem palavras e sem porquês daquele jeito ficamos.

Naquela tarde, imaginei mil coisas, mas sabia a única razão. Hoje, sinto saudades daquele abraço, dos “bons tempos”, mesmo complexos. Quando precisávamos de mais distorção, quando sentíamos o frescor das coisas e que, sim, nos lembraríamos sempre daqueles anos. Talvez você precise de fotos amareladas para ativar algumas memórias, mas sabe que a intensidade de outrora foi doce o bastante para guardar, até hoje, o sabor da adolescência.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Música: "Science Books"
Artista: Arrah and the Ferns (Estados Unidos)
Informações: www.myspace.com/arrahandtheferns



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Tudo ao meu redor. Percepção aos mínimos detalhes e ganas para experimentar cada vibração.

A potencialização do ser. A violência da urgência em injetar energia o suficiente para satisfazer o saber da vida em redenção.

Outros legitimam a existência espiritual por um pedaço de pão dito abençoado. Nós legitimamos a lucidez física dialogando com propriedades naturais da ciência.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Sobre ilustrar

Música: "Gentle Moon"
Artista: Sun Kil Moon (Estados Unidos)
Todas as estrelas podem brilhar, assim como todos os corações podem ser aquecidos. Desolado em meio ao caos da cidade, em uma noite em que o congestionamento passou das dezenove horas, ele nada mais tinha o que fazer enquanto esperava o alívio no trânsito. Era apenas ele e o céu. Lá em cima, naturais pontos luminosos no azul escuro da noite. Aqui, em terra firme, frenéticos pontos luminosos artificiais. Estava entre a contemplação e a obrigação.

Sabe que, segundo contos urbanos, uma estrela que o indivíduo vê no céu pode já não mais existir. É a tal diferença anos luz entre os acontecimentos do universo e o movimento da Terra. Pensa que é capaz de ainda conseguir ver o ponto de luz sumir, de tanto tempo que está e ainda permanecerá em meio a carros, ônibus, caminhões.

As lanternas dos veículos - e da cidade -, incessantes, o faz subverter os aprendizados científicos. A estrela ainda brilha diante os olhos e isso é o que importa. Para o resto do universo, está morta. Para ele, ela ainda é charmosa, viva, capaz de lhe roubar instantes de atenção. Mesmo distante, o brilho chegou ao íntimo.

Então quis manter o foco naquela estrela, tão distante dos olhos e, ao mesmo tempo, de brilho tão intenso que é capaz de aquecer o coração. O exercício deve ser eterno, sem ruídos alheios, sem devaneios. A estrela nunca morrerá, é o que roga, é o que almeja para que, assim, possa seguir viagem.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Espírito livre

Música: "The enigmatic spirit"
Artista: Vintersorg (Suécia)
Informações: www.myspace.com/vintersorganic





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O portão abriu e lá de longe ele viu o vento o empurrando para o lado de fora. Havia música no movimento do vento. Ele, estático, apenas observava. Mentalmente aproxima o olhar daquela cena, o portão lentamente se abrindo e deixando o horizonte à vista. A saída para o mundo, as possibilidades além da visão. Ele, estático, vislumbrava.

O sopro do vento soava em seus ouvidos, media força com seu corpo. O vento, bravo guardião da incerteza ou o mensageiro do amanhã? Ele, ainda estático, fecha os olhos e, às escuras, enfrenta a natureza. Sem armas, sem argumentos e sem planos. Nem mesmo a carne lhe era necessária, pois já está concentrado em pensamentos. E ainda estático.

O curso do vento é o atalho para, estático, atingir a redenção além das fronteiras visíveis. Quebra a simetria da lógica, desafia a alquimia dos antigos e se transforma numa energia amorfa, oriunda da catarse humana. É a peça que se desencaixa do quebra-cabeça planetário e instaura-se como a falha no perfeito plano divino.

Insólito. O portão permanece aberto e o vento continua a soprar produzindo música. E ele marcado pelo choque com as forças naturais que o tirou o ar e devolveu, mutilou a sensibilidade, abriu feridas e as secou, desvirtuou suas visões e processou mil realidades diante seus olhos em frações de segundos.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Voa, corre, anda

Música: "Fraction of a man"
Artista: Shawn Mullins (Estados Unidos)
Informações: www.myspace.com/shawnmullins


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O último suspiro e está decretada a falência. O corpo de Jonas Tell não mais levantaria, nunca mais caminharia até a esquina para tomar café, fumar um cigarro e jogar conversa fora. Morto. Morreu de insuficiência vital. O sangue não mais corria quente e o coração batia desesperadamente, na frequência errada e descompassado. Os músculos já não eram saudáveis para o baque de não mais medir forças. E padeceu.

Jonas Tell foi visto pela última vez nos arredores de sua residência, aparentemente saudável, aparentemente vivo. Apesar de andar e correr, ele não mais voava, o que o entristeceu demais. A deficiência começou quando só conseguia realizar vôos rasos, sem muita destreza e longevidade. Depois apenas tinha fôlego para os impulsos, mas nunca mais decolou. Vivia apenas andando e correndo. A vitalidade há tempo não era sã.

Olhava para os céus e tudo que enxergava eram as nuvens. Olhava para o chão e tudo que enxergava era o asfalto. Levantava as mãos à altura do rosto e via a vida escapar pelos vãos dos dedos. Fechava os olhos e tinha mil desejos. Reticências, interrogações e nada dos pontos finais. Jonas Tell sentia o fardo da doença que lhe assolava.

E subitamente, também não mais corria. Só andava. De lá pra cá e daqui pra lá. Os viciados caminhos de Jonas Tell demarcavam problemas na conjuntura, cujos reparos lhe seriam deveras custosos e com possibilidade de sequelas. Nada fez e mais nada fez. Rezou e deitou. Faleceu da ausência de vida, sem combustível para possibilitar novos vôos.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Prazeres dos pesares

Música: "Black rain, black rain"
Artista: A. A. Bondy (Estados Unidos)
Informações: www.myspace.com/aabondy



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Mais uma dose por precaução de que ficarei embriagado. Mais uma hora no bar para ter certeza que chegarei de madrugada em casa. E mais um momento a contemplando para nunca mais esquecê-la.

A bebida necessária, o ambiente sugestivo e a companhia desejada.

Eu, que era apenas um coadjuvante na história, roubei a cena quando fiquei bêbado, sentei-me a mesa com ela e fui expulso do recinto.

Ela, cujo encantamento me fez saborear sua beleza com uísque, trocar o conforto de uma cama quente por uma cadeira desajeitada e despir-me das formalidades casuais.

Na rua, o efeito do álcool fez-me leve, satisfeito com os prazeres oferecidos a preços módicos, acessíveis em um copo e sentidos com sanidade.

Certificando o instante. Ludibriando o amanhã. Desnorteando os pesares.