“A arte existe porque a vida não basta”, disse Fernando Pessoa.
Quis impor um basta a vida e ficar apenas com a arte, mas esta não lhe é uma possibilidade. Então faz arte para valer a existência da vida.
O minimalismo dos movimentos, a urgência da calmaria e a destreza do acaso
“A arte existe porque a vida não basta”, disse Fernando Pessoa.
Quis impor um basta a vida e ficar apenas com a arte, mas esta não lhe é uma possibilidade. Então faz arte para valer a existência da vida.
Música: "To those who will burn"
Artista: Damien Jurado (Estados Unidos)
Informações: www.myspace.com/damienjurado
Demorei alguns bons minutos para enfim encarar o papel e o lápis postos na escrivaninha do quarto. Era fim de tarde e o vento entrava gelado pelas frestas da janela. Vesti a blusa xadrez marrom que há anos me acompanha. Um ato até mais pela elegância para o ofício de escrever do que apenas “frio”. Na verdade, bastaria simplesmente fechar o vidro da janela.
E foi o que também fiz, como artimanha para desviar ainda mais a atenção para o papel e o lápis que estavam ali, na mesa, perto do relógio que indicava dezenove horas. Hora de não perder mais tempo, hora de sentar e adentrar ao universo da minha vida paralela. Era hora de escrever aos meus anjos e demônios.
Uma confissão sem reticências. Um veredicto convicto. Uma ânsia do tamanho do mundo. Para meus anjos e meus demônios, que pavimentam a existência no âmbito terrestre com a precisão matemática dos antigos e a genialidade artística dos modernos. Para eles, uma confissão, um veredicto e a ânsia de mais e mais concreto.
É quando entendo os minutos perdidos exitando o testamento. Clamar pelos anjos e demônios é trazer à tona a fúria dos anseios e malevolência das inquietações. Senti o peso da confissão e a rispidez do veredicto para enfim destroçar a ânsia dos pensamentos. Uma verdade em uma insanidade: a necessidade do embate constante entre meus anjos e demônios.
Testemunho a favor do conflito interno e renego a linearidade e, principalmente, a lucidez do cotidiano. Uma confissão aos anjos e demônios, que nada tem a ver com a turma do céu ou a do inferno. O veredicto está em mim e minhas ânsias no único plano que existe: o real, o agora.
| Maybe Tomorrow by Stereophonics |
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Música: "3055'
Artista: Ólafur Arnalds (Islândia)
Informações: www.myspace.com/olafurarnalds
| 3055 by Ólafur Arnalds |
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Música: "In the rowans"
Artista: Balmorhea
Informações: www.myspace.com/balmorhea
| In the rowans by Balmorhea |
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Música: "Onde você quer chegar"
Artista: Poléxia (Brasil)
Informações: www.myspace.com/thepolexia
| Onde você quer chegar by Poléxia |
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“Caramba, como fede”, foi o que disse ao passar por uma viela feia e aparentemente de odor duvidoso. Tinha pressa, mas não corria. Aparentemente o caminho era cada vez mais árduo e com desagradáveis surpresas, como esta. O fedor era tão intenso que o seguia. “Mas que merda”, brande.
E nem era merda. Merda era correr contra o tempo, escasso tempo. O atraso lhe cheirava mal e a pontualidade sua neurose. Não via problema em andar, mas dar passos largos o irritava. Não se sentia bem na necessidade em caminhar com pressa, como um imbecil. “Uma merda”.
Estava chegando. Avistou a casa de longe e nem por isso diminuiu o ritmo. Fixou o olhar no objetivo e marchou. Uma jornada cujo fim se aproximava. E ele almejava tanto chegar... e chegou. Abriu a porta com força, como se fosse momento de exteriorizar a ansiosidade pelas mãos. Eram as energias canalizadas que enfim foram expelidas.
Jogou a pasta com força na mesa e retirou o terno com estupidez. Tirou os sapados com a ajuda dos pés como se chutasse, com vontade, um canalha. Arrancou a gravata como a mesma raiva que joga ao lixo esboços mal sucedidos. Enfim, pés no chão, camisa solta para fora da calça e mãos relaxadas. Aparentemente leve, aparentemente fugaz.
Abriu a janela vagarosamente para ter certeza que a luz lá fora não estragaria este momento. Dia cinzento. “Ótimo”, pensa. Permanece por ali, olhando o jardim, lindamente bucólico naquele momento. E nem mesmo a fétida merda do cachorro, ali na grama à sua frente, incomodava.
A calmaria desestressa, potencializa a existência e ensina o caminho mais adequado para o êxtase. Mas merda é merda, inevitavelmente uma hora fede. Hoje, são flores do campo.
| The Ghost by James Yuill |
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| Start a one man band! by Mexican kids at home |
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