sábado, 2 de janeiro de 2010

Espírito livre

Música: "The enigmatic spirit"
Artista: Vintersorg (Suécia)
Informações: www.myspace.com/vintersorganic





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O portão abriu e lá de longe ele viu o vento o empurrando para o lado de fora. Havia música no movimento do vento. Ele, estático, apenas observava. Mentalmente aproxima o olhar daquela cena, o portão lentamente se abrindo e deixando o horizonte à vista. A saída para o mundo, as possibilidades além da visão. Ele, estático, vislumbrava.

O sopro do vento soava em seus ouvidos, media força com seu corpo. O vento, bravo guardião da incerteza ou o mensageiro do amanhã? Ele, ainda estático, fecha os olhos e, às escuras, enfrenta a natureza. Sem armas, sem argumentos e sem planos. Nem mesmo a carne lhe era necessária, pois já está concentrado em pensamentos. E ainda estático.

O curso do vento é o atalho para, estático, atingir a redenção além das fronteiras visíveis. Quebra a simetria da lógica, desafia a alquimia dos antigos e se transforma numa energia amorfa, oriunda da catarse humana. É a peça que se desencaixa do quebra-cabeça planetário e instaura-se como a falha no perfeito plano divino.

Insólito. O portão permanece aberto e o vento continua a soprar produzindo música. E ele marcado pelo choque com as forças naturais que o tirou o ar e devolveu, mutilou a sensibilidade, abriu feridas e as secou, desvirtuou suas visões e processou mil realidades diante seus olhos em frações de segundos.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Voa, corre, anda

Música: "Fraction of a man"
Artista: Shawn Mullins (Estados Unidos)
Informações: www.myspace.com/shawnmullins


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O último suspiro e está decretada a falência. O corpo de Jonas Tell não mais levantaria, nunca mais caminharia até a esquina para tomar café, fumar um cigarro e jogar conversa fora. Morto. Morreu de insuficiência vital. O sangue não mais corria quente e o coração batia desesperadamente, na frequência errada e descompassado. Os músculos já não eram saudáveis para o baque de não mais medir forças. E padeceu.

Jonas Tell foi visto pela última vez nos arredores de sua residência, aparentemente saudável, aparentemente vivo. Apesar de andar e correr, ele não mais voava, o que o entristeceu demais. A deficiência começou quando só conseguia realizar vôos rasos, sem muita destreza e longevidade. Depois apenas tinha fôlego para os impulsos, mas nunca mais decolou. Vivia apenas andando e correndo. A vitalidade há tempo não era sã.

Olhava para os céus e tudo que enxergava eram as nuvens. Olhava para o chão e tudo que enxergava era o asfalto. Levantava as mãos à altura do rosto e via a vida escapar pelos vãos dos dedos. Fechava os olhos e tinha mil desejos. Reticências, interrogações e nada dos pontos finais. Jonas Tell sentia o fardo da doença que lhe assolava.

E subitamente, também não mais corria. Só andava. De lá pra cá e daqui pra lá. Os viciados caminhos de Jonas Tell demarcavam problemas na conjuntura, cujos reparos lhe seriam deveras custosos e com possibilidade de sequelas. Nada fez e mais nada fez. Rezou e deitou. Faleceu da ausência de vida, sem combustível para possibilitar novos vôos.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Prazeres dos pesares

Música: "Black rain, black rain"
Artista: A. A. Bondy (Estados Unidos)
Informações: www.myspace.com/aabondy



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Mais uma dose por precaução de que ficarei embriagado. Mais uma hora no bar para ter certeza que chegarei de madrugada em casa. E mais um momento a contemplando para nunca mais esquecê-la.

A bebida necessária, o ambiente sugestivo e a companhia desejada.

Eu, que era apenas um coadjuvante na história, roubei a cena quando fiquei bêbado, sentei-me a mesa com ela e fui expulso do recinto.

Ela, cujo encantamento me fez saborear sua beleza com uísque, trocar o conforto de uma cama quente por uma cadeira desajeitada e despir-me das formalidades casuais.

Na rua, o efeito do álcool fez-me leve, satisfeito com os prazeres oferecidos a preços módicos, acessíveis em um copo e sentidos com sanidade.

Certificando o instante. Ludibriando o amanhã. Desnorteando os pesares.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O eterno retorno

Música: "Campo de centeio"
Artista: Andrei Machado (Brasil)
Informações: www.myspace.com/andreimachado


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Sem causas, sem finalidades e sem deuses.

O colapso do tempo que estrangula a ordem das coisas e perpetua o devir.

Recai o olhar para si mesmo...

...e emerge apenas com o que lhe interessa.

Vive e morre; agradece e amaldiçoa, trabalha e descança; vai e volta.

E reina sublime.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Quase um grito

Música: “Casi un grito de rabia”
Artista: Bosques de mi mente (Espanha)
Informações: www.myspace.com/bosquesdemimente

A música indicada está no link do Myspace

Quase um grito. Longo, desesperado e relaxante. Quase um grito, que foi contido em uma extensa puxada de ar e no fechar dos punhos, canalizando energias no seu íntimo, um terremoto interior. Quase um grito, exitado, desvirtuado. Ponderado.

Nada de palavras. A urgência em sentir sem definições, abstrair a partir do minimalismo do corpo. A raiva, as frustrações e as explosões, tudo vibra em cada molécula, em cada célula nervosa e ele transcende para o mundo físico, onde a dor também é sutil, onde o deleite perfura e corta.

O olhar recai para si mesmo, para o que é, para o que pensa que é. E não é. Analisa, reflete, não entende e não é. Simplesmente não é. Quer voar e pisar em chão firme. A realidade. Quer a realidade. Quer movimentos, sangue, suor, lágrimas, abraços, aperto de mãos, ralar o cara no chão, o vento no peito e o frescor da água nos pés. Quer a vida em quase um grito.

E foi quase um grito. Após minutos, foi apenas um suspiro. O alívio da revolução silenciosa e a eminência da vida em redenção. Em quase um grito.


domingo, 4 de outubro de 2009

Música: "Tiger, tiger"
Artista: Bishop Allen (Estados Unidos)
Informações: www.myspace.com/bishopallen


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Entrou num blog a esmo, não interagiu com o conteúdo, mas fez questão de ler os comentários. Certamente não escreveria nada, mas fez uma leitura dinâmica no que três outros visitantes registraram num post. Bobagens. Palavras por palavras sem um pingo de relevância ao autor. Bobagens e mais bobagens.

Era o blog de uma pessoa conhecida, mas que devido a distância e indiferença dela, se tornaram meros “ex-colegas de classe”. Ela provavelmente se gabará das inutilidades nos recados, pensa. E afinal, por que se preocupar? Porque ainda não aprendeu a lidar com o sentido de “ser indiferente”. Porque boas recordações de outrora são latentes o bastante para que novas memórias sejam produzidas entre elas.

Sai do computador e se desloca até a estante do quarto. Para em frente ao saudosismo e dá as costas. Não se afundará no passado. Não quer revisar fatos e então retorna ao blog do conhecido e escreve:

“Hei, tudo bem? Minhas palavras não servirão para legitimar seu post, ao mesmo tempo em que não são apenas para dizer que fuço na sua vida. Porque você sabe que nada disso é necessário, ou, ao menos no passado, são possibilidades nunca pensadas entre eu, você e todos nós.

Ouvir você me xingar, na brincadeira, claro, é muito mais gratificante do que escutar seus méritos e demais sucessos do presente. Já sei da sua capacidade, há anos espero e torço pela felicidade de todos nós, mas espero, e ainda espero muito mais, que me conte as trivialidades do seu blog com a naturalidade de sempre, com a despretensão de sempre.

Não somos mais crianças e exatamente por estarmos perto dos 30 é que entendemos, ou devíamos entender, que nossos risos e choros são revigorados quando lado a lado, de mãos dadas e abraçados. A distância não é merda alguma quando a vontade de tudo isso está a toda hora no nosso íntimo.

Um oi, um como vai, uma saudades e um até breve”

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Perfume

Música: "Misty"
Artista: Billie Holiday (Estados Unidos)
Informações: http://www.billie-holiday.net/




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Talvez seja isto, a essência da harmonia e a flagrância da vida. Satisfeita com o consenso dos pensamentos ela levanta a cabeça, se concentra na música ambiente e rende-se a subjetividade das coisas. Ao redor, a consciência já não mais distingue o certo do errado, o possível do impossível. É quando o estado de espírito não necessariamente é físico para existir.

A Praça do Papa, em Belo Horizonte, estava tomada de pessoas. O programa já estava há tempos agendado e desde então estava decidida que se deslocaria até o local para se deleitar com as atrações nacionais e internacionais do I Love Jazz.

Para ela, o jazz transcende a música. É a manifestação de arte que proporciona deleite por meio da sensibilidade auditiva e olfativa. Sim, recebe a sonoridade em forma de perfume, que impregna na pele, se mistura com a energia do corpo e retorna ao ambiente externo em forma de um aroma intensamente experimentado, pelo tato, no ar.

Indiferente a agitação alheia ela repousa os sentimentos na ânsia de alimentá-los. Com música, com cheiros, com urgência. Aos primeiros toques do piano – e o sax que gradativamente encorpava a música -, ela respira o ar leve, doce e facilmente acolhedor. Mas, durante a intensidade dos instrumentos e no momento mais potente em que a vocalista posta a voz, o ar já carregado de mistério e sensualidade, que pouco a pouco a envolve como um abraço de conforto.

O relógio aponta o fim da tarde, o sol se despede com raios alaranjados, que logo se mesclam com o azul da noite. Para ela, o momento perfeito, o combustível que a legitima. E que revigora a trivialidade dos dias e condensa a existência. No caminho para casa, ela sente o perfume daquela experiência como a flagrância pertinente, aquela que uma vez no íntimo, nunca mais esquecida. Um vício.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Tranquila

Música: "Casan (no puedo bloquear lo que queiro dar)"
Artista: Javiera Mena (Chile)



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A bateria do toca-mp3 acaba antes de chegar a sua casa. Pelas suas contas, ainda faltava dez minutos até o destino final, tempo que seria experimentado em conflito com o som de motores, buzinas e cochichos alheios. Dezoito horas e quarenta minutos. Um dia cansativo, produtivo e proveitoso, pensa. E que não terminaria ao findar do sol, pois o azul escuro da noite lhe prometia muitas outras brilhantes sensações.

Mas foi nestes exatos dez minutos consigo mesmo que desfrutou de sentimentos benéficos. O prazer era de um abraço com toneladas de afeto, daqueles que se lembra por resto da vida. Os olhos dispersos nada e tudo viam. A auto-estrada que, estática, conduzia pessoas às outras, que até poderiam estar à espera de um abraço confortante ou uma relaxante dose alcoólica. Lapsos visuais de um livreiro, que sentado à porta do estabelecimento, ainda em horário de funcionamento, reparava ao redor, como se capturava cenas para sua tão sonhada primeira publicação literária.

Os segundos passam, os minutos passam. Meticulosamente as cenas cotidianas observadas são absorvidas. Como um videoclipe de uma música minimalista, em que cada mínimo detalhe sonoro chicoteasse a carne e exprimisse o êxtase pelo sangue misturado ao suor. É a dor que gera o deleite, o indiferente que se torna o essencial. Escurecia, mas sentia-se iluminado, sem medo das trevas.

À esquerda, um ponto de ônibus com pessoas que acabaram de sair do cinema. Conversas dispersas em meio a preocupação de não perder a condução. E, na calçada, a pressa de andar para bem longe do local em que trabalham, desajeitando a gravata e brindando a informalidade da noite. Em tudo e em todos, como em si mesmo, captava a importância do conforto, a segurança no bem estar. Não em dez minutos, mas em toda uma vida. Não apenas no período noturno, mas que seja pertinente 24 horas.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Música: "É o que me interessa"
Artista: Lenine (Brasil)
Informações: www.myspace.com/lenineoficial


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Alguns dias e algumas horas são suficientes para sentir o que acalanta a finitude. É quando os limites são testados e, de forma sublime, esmagados por prazeres intangíveis. Penso, movimento-me, falo, calo, sinto, olho e em milésimos de segundos tudo se torna uma experiência cujos resultados aparecem na realidade pelo brilho dos olhos.

É o combustível que o corpo físico necessita para ter energia e queima-la nas práticas formais e informais da existência. A reestruturação mental para, assim como o mundo que me cerca, se renovar a cada urgência dos anos que passam.

E subitamente sinto-me leve, imune a desgraças e ansioso por mais vida. O fim de tarde com amigos, o reencontro com àqueles que estavam distantes, o aperto de mão com um até então estranho e logo em seguida alguém que lhe proporcionou boas risadas. A madrugada intimista e uma boa companhia, a surpreendente sensação de sentir-se em casa e ânsia por tudo o quanto antes, como uma enfermidade que precisa de reparos.

Longe, tudo é miragem e felicidade alheia. Da Lua, a perspectiva é diferente; e fora de órbita eu vago, desnorteado, pesado, insensível, mas ainda com a mesma ânsia por outros dias e horas como aquelas.

Obs.: Um muito obrigado ao Eduardo, Thais, Felipe, Priscila, Guilherme, Cândida, Jota, Aline, Dan, Guto, Ivinho, Charque e tantos outros que fizeram de alguns dias e algumas horas momentos cravados para sempre até o fim da minha existência.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Ar radical

Música: "Born Again"
Artista: Starsailor (Inglaterra)



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Sete horas da manhã. Desperta, se arruma e a bicicleta já está devidamente preparada para o dia. O grande dia, em que rituais banais se tornam extremamente satisfatórios e prazerosos quando realizados com a mais pura sinceridade. É aquela vontade sentir o vento matinal explodir no rosto e no peito, a necessidade de rodar pela cidade sem destino algum. Afinal, era o dia de esquecer tudo o que poderia fazer sentido.

Em dias sem sentido até mesmo o brilho do sol lhe era conveniente. E estava lá no céu, ameno, a luz que enfim o acordou. Não perdeu mais tempo e saiu. Pedalou. Suou. Cansou e não parou. O vento nas entranhas era energia. Estava fazendo circular o sangue há tempos emperrado e com dificuldades de alimentar o organismo.

Quanto mais pedalava, mais injetava novos ares à vida. O ar radical, que outrora foi primordial a sua formação e hoje deveras melhor experimentado. Combustível vital que, assim como um ritual, mistifica a existência humana e potencializa a longevidade. E, sem sentido, desejou fechar os olhos e descer uma ladeira desfreadamente. Não fez, não quer sempre depender do acaso.

No entanto, melhorar a circulação do sangue não foi suficiente para eliminar o veneno há tanto tempo no organismo. Um veneno que não machuca e não matará. Fere em lembranças e o faz escravo de coisas sem sentido, a única que quer apagar da memória, sempre sem sucesso. E que nem mesmo o que fez hoje sanará.

Sentidos vitais não são substituíveis. Ar renovado algum é capaz de expeli-lo e enquanto isso ele vive, se apega a rituais, facilita a funcionalidade da existência física e retorna ao acaso.