terça-feira, 30 de março de 2010

Música: "The isle of summer"
Artista: Agalloch (Estados Unidos)
Informações: www.myspace.com/agalloch



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Oi, Cecília, como vai? Parei de trabalhar por um momento para te escrever. Ah, sim, está tudo bem, as pautas atendidas, entrevistas realizadas e parágrafos fluindo com naturalidade. Claro, já foram dois copos de café, conversa informal com o pessoal do jornal e bisbilhotadas no e-mail particular. É, recebi um ou outro, mas nenhum que realmente esperava ou que me surpreendeu.

Hoje vi umas fotos. Não, não minhas, de pessoas quaisquer, que assim como eu - e você - registraram certos momentos da vida. São fotos reveladas em papel, que até já estavam amareladas e confesso que acho este “efeito” bacana, como se o envelhecimento natural das coisas fosse capaz de legitimar a lembrança. Como se o dono da foto falasse “olha, isso faz tanto tempo! E ainda me recordo do dia em que foi fotografada”. Penso que gostaria de fotografar cada movimento, cada risada e cada trapalhada da minha vida. Sabe? Estamos crescendo e este processo também é passível de memória.

Mas não é simples assim, viu, Cecília. Quando vejo fotos como estas, de experiências de outras pessoas, sinto que tenho lembranças semelhantes, mesmo não fotografadas e me emociono, principalmente nas de fatos cotidianos. Sei lá porque, é quando prefiro conceber ideias no campo do sentimentalismo barato. Típico, eu sei, mas você deve levar em consideração que os anos passam, as memórias amarelam e enlouquecemos para que haja um pingo de nitidez em coisas cujos elos estão fracos.

Lembra de quando passeávamos de carro pela cidade, sem destino, sem propósito? Então, Cecília, é disso que eu falo. O corriqueiro de ontem e a saudades do hoje. Mas olha, estou te atrapalhando? Você sente algo parecido com coisas do passado? Ontem mesmo, de noite, fui deitar e queria musica. Fiquei um tempo em frente aos meus CDs, procurando algo que soasse lisérgico e atmosférico. E aí eram tantos... e cada um com uma história. Lembra, como eu me dedicava a ler sobre lançamentos e escutá-los? Mas então, demorei e não achei, porque eu queria todos ao mesmo tempo.

E é assim que me vejo em certos dias. Um computador com infinitas informações que entra em pane na tentativa de solucionar uma questão aparentemente fácil. É quanto peço ajuda aos amigos imaginários, que, no entanto, são todos uma só pessoa, eu. E percebo que tenho, sim, as respostas, sei os caminhos certeiros, mas antes trilho os mais complexos. Isso me lembra do verão de 2000, numa tarde com brincadeira de bola no quintal de sua casa. Lembra? Quando você a chutou forte contra o muro, girou o corpo e me abraçou, permanecendo assim por alguns minutos? Sem palavras e sem porquês daquele jeito ficamos.

Naquela tarde, imaginei mil coisas, mas sabia a única razão. Hoje, sinto saudades daquele abraço, dos “bons tempos”, mesmo complexos. Quando precisávamos de mais distorção, quando sentíamos o frescor das coisas e que, sim, nos lembraríamos sempre daqueles anos. Talvez você precise de fotos amareladas para ativar algumas memórias, mas sabe que a intensidade de outrora foi doce o bastante para guardar, até hoje, o sabor da adolescência.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Música: "Science Books"
Artista: Arrah and the Ferns (Estados Unidos)
Informações: www.myspace.com/arrahandtheferns



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Tudo ao meu redor. Percepção aos mínimos detalhes e ganas para experimentar cada vibração.

A potencialização do ser. A violência da urgência em injetar energia o suficiente para satisfazer o saber da vida em redenção.

Outros legitimam a existência espiritual por um pedaço de pão dito abençoado. Nós legitimamos a lucidez física dialogando com propriedades naturais da ciência.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Sobre ilustrar

Música: "Gentle Moon"
Artista: Sun Kil Moon (Estados Unidos)
Todas as estrelas podem brilhar, assim como todos os corações podem ser aquecidos. Desolado em meio ao caos da cidade, em uma noite em que o congestionamento passou das dezenove horas, ele nada mais tinha o que fazer enquanto esperava o alívio no trânsito. Era apenas ele e o céu. Lá em cima, naturais pontos luminosos no azul escuro da noite. Aqui, em terra firme, frenéticos pontos luminosos artificiais. Estava entre a contemplação e a obrigação.

Sabe que, segundo contos urbanos, uma estrela que o indivíduo vê no céu pode já não mais existir. É a tal diferença anos luz entre os acontecimentos do universo e o movimento da Terra. Pensa que é capaz de ainda conseguir ver o ponto de luz sumir, de tanto tempo que está e ainda permanecerá em meio a carros, ônibus, caminhões.

As lanternas dos veículos - e da cidade -, incessantes, o faz subverter os aprendizados científicos. A estrela ainda brilha diante os olhos e isso é o que importa. Para o resto do universo, está morta. Para ele, ela ainda é charmosa, viva, capaz de lhe roubar instantes de atenção. Mesmo distante, o brilho chegou ao íntimo.

Então quis manter o foco naquela estrela, tão distante dos olhos e, ao mesmo tempo, de brilho tão intenso que é capaz de aquecer o coração. O exercício deve ser eterno, sem ruídos alheios, sem devaneios. A estrela nunca morrerá, é o que roga, é o que almeja para que, assim, possa seguir viagem.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Espírito livre

Música: "The enigmatic spirit"
Artista: Vintersorg (Suécia)
Informações: www.myspace.com/vintersorganic





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O portão abriu e lá de longe ele viu o vento o empurrando para o lado de fora. Havia música no movimento do vento. Ele, estático, apenas observava. Mentalmente aproxima o olhar daquela cena, o portão lentamente se abrindo e deixando o horizonte à vista. A saída para o mundo, as possibilidades além da visão. Ele, estático, vislumbrava.

O sopro do vento soava em seus ouvidos, media força com seu corpo. O vento, bravo guardião da incerteza ou o mensageiro do amanhã? Ele, ainda estático, fecha os olhos e, às escuras, enfrenta a natureza. Sem armas, sem argumentos e sem planos. Nem mesmo a carne lhe era necessária, pois já está concentrado em pensamentos. E ainda estático.

O curso do vento é o atalho para, estático, atingir a redenção além das fronteiras visíveis. Quebra a simetria da lógica, desafia a alquimia dos antigos e se transforma numa energia amorfa, oriunda da catarse humana. É a peça que se desencaixa do quebra-cabeça planetário e instaura-se como a falha no perfeito plano divino.

Insólito. O portão permanece aberto e o vento continua a soprar produzindo música. E ele marcado pelo choque com as forças naturais que o tirou o ar e devolveu, mutilou a sensibilidade, abriu feridas e as secou, desvirtuou suas visões e processou mil realidades diante seus olhos em frações de segundos.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Voa, corre, anda

Música: "Fraction of a man"
Artista: Shawn Mullins (Estados Unidos)
Informações: www.myspace.com/shawnmullins


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O último suspiro e está decretada a falência. O corpo de Jonas Tell não mais levantaria, nunca mais caminharia até a esquina para tomar café, fumar um cigarro e jogar conversa fora. Morto. Morreu de insuficiência vital. O sangue não mais corria quente e o coração batia desesperadamente, na frequência errada e descompassado. Os músculos já não eram saudáveis para o baque de não mais medir forças. E padeceu.

Jonas Tell foi visto pela última vez nos arredores de sua residência, aparentemente saudável, aparentemente vivo. Apesar de andar e correr, ele não mais voava, o que o entristeceu demais. A deficiência começou quando só conseguia realizar vôos rasos, sem muita destreza e longevidade. Depois apenas tinha fôlego para os impulsos, mas nunca mais decolou. Vivia apenas andando e correndo. A vitalidade há tempo não era sã.

Olhava para os céus e tudo que enxergava eram as nuvens. Olhava para o chão e tudo que enxergava era o asfalto. Levantava as mãos à altura do rosto e via a vida escapar pelos vãos dos dedos. Fechava os olhos e tinha mil desejos. Reticências, interrogações e nada dos pontos finais. Jonas Tell sentia o fardo da doença que lhe assolava.

E subitamente, também não mais corria. Só andava. De lá pra cá e daqui pra lá. Os viciados caminhos de Jonas Tell demarcavam problemas na conjuntura, cujos reparos lhe seriam deveras custosos e com possibilidade de sequelas. Nada fez e mais nada fez. Rezou e deitou. Faleceu da ausência de vida, sem combustível para possibilitar novos vôos.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Prazeres dos pesares

Música: "Black rain, black rain"
Artista: A. A. Bondy (Estados Unidos)
Informações: www.myspace.com/aabondy



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Mais uma dose por precaução de que ficarei embriagado. Mais uma hora no bar para ter certeza que chegarei de madrugada em casa. E mais um momento a contemplando para nunca mais esquecê-la.

A bebida necessária, o ambiente sugestivo e a companhia desejada.

Eu, que era apenas um coadjuvante na história, roubei a cena quando fiquei bêbado, sentei-me a mesa com ela e fui expulso do recinto.

Ela, cujo encantamento me fez saborear sua beleza com uísque, trocar o conforto de uma cama quente por uma cadeira desajeitada e despir-me das formalidades casuais.

Na rua, o efeito do álcool fez-me leve, satisfeito com os prazeres oferecidos a preços módicos, acessíveis em um copo e sentidos com sanidade.

Certificando o instante. Ludibriando o amanhã. Desnorteando os pesares.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O eterno retorno

Música: "Campo de centeio"
Artista: Andrei Machado (Brasil)
Informações: www.myspace.com/andreimachado


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Sem causas, sem finalidades e sem deuses.

O colapso do tempo que estrangula a ordem das coisas e perpetua o devir.

Recai o olhar para si mesmo...

...e emerge apenas com o que lhe interessa.

Vive e morre; agradece e amaldiçoa, trabalha e descança; vai e volta.

E reina sublime.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Quase um grito

Música: “Casi un grito de rabia”
Artista: Bosques de mi mente (Espanha)
Informações: www.myspace.com/bosquesdemimente

A música indicada está no link do Myspace

Quase um grito. Longo, desesperado e relaxante. Quase um grito, que foi contido em uma extensa puxada de ar e no fechar dos punhos, canalizando energias no seu íntimo, um terremoto interior. Quase um grito, exitado, desvirtuado. Ponderado.

Nada de palavras. A urgência em sentir sem definições, abstrair a partir do minimalismo do corpo. A raiva, as frustrações e as explosões, tudo vibra em cada molécula, em cada célula nervosa e ele transcende para o mundo físico, onde a dor também é sutil, onde o deleite perfura e corta.

O olhar recai para si mesmo, para o que é, para o que pensa que é. E não é. Analisa, reflete, não entende e não é. Simplesmente não é. Quer voar e pisar em chão firme. A realidade. Quer a realidade. Quer movimentos, sangue, suor, lágrimas, abraços, aperto de mãos, ralar o cara no chão, o vento no peito e o frescor da água nos pés. Quer a vida em quase um grito.

E foi quase um grito. Após minutos, foi apenas um suspiro. O alívio da revolução silenciosa e a eminência da vida em redenção. Em quase um grito.


domingo, 4 de outubro de 2009

Música: "Tiger, tiger"
Artista: Bishop Allen (Estados Unidos)
Informações: www.myspace.com/bishopallen


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Entrou num blog a esmo, não interagiu com o conteúdo, mas fez questão de ler os comentários. Certamente não escreveria nada, mas fez uma leitura dinâmica no que três outros visitantes registraram num post. Bobagens. Palavras por palavras sem um pingo de relevância ao autor. Bobagens e mais bobagens.

Era o blog de uma pessoa conhecida, mas que devido a distância e indiferença dela, se tornaram meros “ex-colegas de classe”. Ela provavelmente se gabará das inutilidades nos recados, pensa. E afinal, por que se preocupar? Porque ainda não aprendeu a lidar com o sentido de “ser indiferente”. Porque boas recordações de outrora são latentes o bastante para que novas memórias sejam produzidas entre elas.

Sai do computador e se desloca até a estante do quarto. Para em frente ao saudosismo e dá as costas. Não se afundará no passado. Não quer revisar fatos e então retorna ao blog do conhecido e escreve:

“Hei, tudo bem? Minhas palavras não servirão para legitimar seu post, ao mesmo tempo em que não são apenas para dizer que fuço na sua vida. Porque você sabe que nada disso é necessário, ou, ao menos no passado, são possibilidades nunca pensadas entre eu, você e todos nós.

Ouvir você me xingar, na brincadeira, claro, é muito mais gratificante do que escutar seus méritos e demais sucessos do presente. Já sei da sua capacidade, há anos espero e torço pela felicidade de todos nós, mas espero, e ainda espero muito mais, que me conte as trivialidades do seu blog com a naturalidade de sempre, com a despretensão de sempre.

Não somos mais crianças e exatamente por estarmos perto dos 30 é que entendemos, ou devíamos entender, que nossos risos e choros são revigorados quando lado a lado, de mãos dadas e abraçados. A distância não é merda alguma quando a vontade de tudo isso está a toda hora no nosso íntimo.

Um oi, um como vai, uma saudades e um até breve”

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Perfume

Música: "Misty"
Artista: Billie Holiday (Estados Unidos)
Informações: http://www.billie-holiday.net/




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Talvez seja isto, a essência da harmonia e a flagrância da vida. Satisfeita com o consenso dos pensamentos ela levanta a cabeça, se concentra na música ambiente e rende-se a subjetividade das coisas. Ao redor, a consciência já não mais distingue o certo do errado, o possível do impossível. É quando o estado de espírito não necessariamente é físico para existir.

A Praça do Papa, em Belo Horizonte, estava tomada de pessoas. O programa já estava há tempos agendado e desde então estava decidida que se deslocaria até o local para se deleitar com as atrações nacionais e internacionais do I Love Jazz.

Para ela, o jazz transcende a música. É a manifestação de arte que proporciona deleite por meio da sensibilidade auditiva e olfativa. Sim, recebe a sonoridade em forma de perfume, que impregna na pele, se mistura com a energia do corpo e retorna ao ambiente externo em forma de um aroma intensamente experimentado, pelo tato, no ar.

Indiferente a agitação alheia ela repousa os sentimentos na ânsia de alimentá-los. Com música, com cheiros, com urgência. Aos primeiros toques do piano – e o sax que gradativamente encorpava a música -, ela respira o ar leve, doce e facilmente acolhedor. Mas, durante a intensidade dos instrumentos e no momento mais potente em que a vocalista posta a voz, o ar já carregado de mistério e sensualidade, que pouco a pouco a envolve como um abraço de conforto.

O relógio aponta o fim da tarde, o sol se despede com raios alaranjados, que logo se mesclam com o azul da noite. Para ela, o momento perfeito, o combustível que a legitima. E que revigora a trivialidade dos dias e condensa a existência. No caminho para casa, ela sente o perfume daquela experiência como a flagrância pertinente, aquela que uma vez no íntimo, nunca mais esquecida. Um vício.