Música: "Misty"
Artista: Billie Holiday (Estados Unidos)
Informações: http://www.billie-holiday.net/
Talvez seja isto, a essência da harmonia e a flagrância da vida. Satisfeita com o consenso dos pensamentos ela levanta a cabeça, se concentra na música ambiente e rende-se a subjetividade das coisas. Ao redor, a consciência já não mais distingue o certo do errado, o possível do impossível. É quando o estado de espírito não necessariamente é físico para existir.
A Praça do Papa, em Belo Horizonte, estava tomada de pessoas. O programa já estava há tempos agendado e desde então estava decidida que se deslocaria até o local para se deleitar com as atrações nacionais e internacionais do I Love Jazz.
Para ela, o jazz transcende a música. É a manifestação de arte que proporciona deleite por meio da sensibilidade auditiva e olfativa. Sim, recebe a sonoridade em forma de perfume, que impregna na pele, se mistura com a energia do corpo e retorna ao ambiente externo em forma de um aroma intensamente experimentado, pelo tato, no ar.
Indiferente a agitação alheia ela repousa os sentimentos na ânsia de alimentá-los. Com música, com cheiros, com urgência. Aos primeiros toques do piano – e o sax que gradativamente encorpava a música -, ela respira o ar leve, doce e facilmente acolhedor. Mas, durante a intensidade dos instrumentos e no momento mais potente em que a vocalista posta a voz, o ar já carregado de mistério e sensualidade, que pouco a pouco a envolve como um abraço de conforto.
O relógio aponta o fim da tarde, o sol se despede com raios alaranjados, que logo se mesclam com o azul da noite. Para ela, o momento perfeito, o combustível que a legitima. E que revigora a trivialidade dos dias e condensa a existência. No caminho para casa, ela sente o perfume daquela experiência como a flagrância pertinente, aquela que uma vez no íntimo, nunca mais esquecida. Um vício.